terça-feira, 27 de julho de 2010

Prosperidade sem crescimento - Economia para um planeta finito



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Qua, 27 de Janeiro de 2010 00:00

Antes de mais nada, é preciso salientar e, mais do que isso, é preciso revolucionar nosso conceito moral da infinitude dos recursos do planetinha azul. Fixemo-nos no segundo termo do binômio do título. Explique-se: a evolução nos acostumou até aqui a pensar, ou acreditar, o que é pior, que no planeta nunca nada nos faltará, uma espécie de um eterno em se plantando tudo dá transliterado para – em se extraindo tudo permanece. Não deixa de ser, é óbvio, uma reminiscência de nossa crença em um paraíso (perdido!): bom seria se assim fosse. Mas há essa distância abissal entre aquilo que gostaríamos que fosse (um planeta de recursos infindáveis, e com uma capacidade mágica de autodepuração, para desfazer nossa poluição) e aquilo que é: um planeta no qual todos os recursos, a depender da forma e inteligência de sua exploração, são/poderão ser finitos. É certo que ao lado de seus tantos reveses, o ser humano tem acumulado também conquistas, sobretudo nos últimos duzentos anos, pelas mãos da Ciência (em que pese seus inúmeros e recorrentes maus usos dessa). O desenvolver do conhecimento científico mostra-nos hoje, indubitavelmente: (1) que recursos minerais e orgânicos caracterizam-se por ‘esgotabilidade’, mesmo a água, que tem um permanente ciclo de vida, não diminuindo em quantidade, pode desaparecer em qualidade para uso, e (2) que a Terra tem sua própria fisiologia – como um corpo vivo que é, opera fisiologicamente sua homeostase, uma eco-homeostase, que pode sim ser rompida quando o agente etiológico, vale dizer, o fator impactante, supera a capacidade homeostática de neutralização da causa nociva e reparação do dano. Desconhecer a fisiologia do planeta, imputando-lhe por nossas ações diversas patologias, é, na atualidade, a maior prova de todas de nossa miopia e do fato de que para fazermos jus ao presunçoso título de sapiens, talvez ainda falte muito. Ora, entendido que o planeta tem muitos e pródigos recursos sim, mas todos finitos, a pergunta aguda que se expõe a qualquer pessoa medianamente sensata é: e a economia que temos praticado, principalmente essa do atual supercapitalismo onipresente, terá sido uma economia concebida e praticada sob o paradigma da finitude dos recursos. Ou seja, será que ao longo de nossos últimos séculos, ao lado do consumo dos recursos, enquanto os ricos enriqueciam e formavam suas superpoupanças, criou-se também, como que compulsoriamente, uma poupança ambiental, nas regras da própria economia, para reparo e reestruturação da economia futura, quando, como é o caso agora, adoecesse a galinha dos ovos de ouro? Simplificando: qual deve ser nossa engenharia econômica, assumido-se o referencial de que os recursos naturais (inclusive o oxigênio) poderão terminar ou então, ainda que não findem, poderão estar inviáveis para a utilização que se lhes necessita dar? Noutras palavras ainda (e agora já envolvendo na reflexão a primeira parte do binômio do título): será que deveremos desenvolver uma economia lastreada no paradigma de prosperar sim, mas sem crescer?

Esse é o inquietante desafio a que nos lança, sem maiores sutilezas, Tim Jackson, professor de Desenvolvimento Sustentável e diretor do Grupo de Pesquisas sobre Estilos de Vida, Valores e Meio Ambiente, Universidade de Surrey (http://www2.surrey.ac.uk/), Reino Unido, e diretor econômico da Comissão de Desenvolvimento Sustentável da Grã-Bretanha (http://www.sd-commission.org.uk/pages/tim-jackson.html). Diz Tim Jackson: “A contínua busca do crescimento econômico coloca em perigo os ecossistemas dos quais dependemos para uma sobrevivência de longo prazo.” E, a respeito de suas posições, arremata: “A fúria às vezes é a resposta adequada”, alfinetando a falta de engajamento dos líderes mundiais, que não pactuaram um novo tratado climático na reunião de Copenhague.
 
O professor, como visto um crítico severo ao Acordo há pouco obtido na bela capital dinamarquesa, é autor de um recente, e ao que parece já polêmico, livro: Prospertiy without Growth - Economics for a Finite Planet (http://www.earthscan.co.uk/ProsperityWithoutGrowth/tabid/102098/Default.aspx), de propósito empregado como título desse comentário.

Stephen Leahy realizou uma interessante entrevista com Jackson para o portal Tierramerica (http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=port&idnews=3380). Vejamos alguns pontos de destaque dessa breve entrevista, nas palavras do próprio entrevistado:


TERRAMÉRICA: Em seu livro, você afirma que o crescimento econômico nos países industrializados está deixando as pessoas menos felizes e destruindo a terra.

“A contínua busca pelo crescimento coloca em risco os ecossistemas dos quais dependemos para uma sobrevivência de longo prazo. Também há ampla evidência de que uma riqueza material maior nos países industrializados não faz seus habitantes felizes, muito pelo contrário.Além de determinado nível de renda, não existe uma correlação de que isso seja diretamente proporcional à felicidade.”

TERRAMÉRICA: Se a era do crescimento terminou, o que ocupará seu lugar?

“É necessário redefinir a riqueza e a prosperidade com base nos parâmetros de *capacidade de florescimento* de Amartya Sen (ganhador do Nobel de Economia em 1998). O florescimento se define como ter o suficiente para comer, ser parte de uma comunidade, ter um emprego que valha a pena, uma moradia decente, acesso a educação e serviços médicos.”

TERRAMÉRICA: E o que acontece com os países em desenvolvimento?

“As nações industrializadas precisam dar essa virada para criar um espaço que permita ao mundo em desenvolvimento melhorar o desempenho de sua economia. Este crescimento tem de ser sustentável e estar dentro dos limites ecológicos. A atual desigualdade entre nações ricas e pobres é uma razão primordial para que o mundo industrializado necessite fazer esta correção de rumo.”

Como se percebe, pelos destaques em negrito que acima fizemos, as provocações que Tim Jackson nos lança são de cunho profundamente filosófico, posto que, além de nos desafiar a uma prosperidade de conotação ecológica, ou, pelo menos, ecoecológica, em lugar do já testado e hoje roto modelo de desenvolvimento assentado no crescimento da produção e dos meios de produção somente, ele:
  • Na primeira das relacionadas respostas nos conclama a refletir a respeito da natureza da felicidade, talvez a mais antiga (e mais presente) das preocupações filosóficas. E o que faz Jackson, com evidente sabedoria, é apontar para o fato de que felicidade não é medida por critério de acumulação de bens e posses. Há, oculta nessa cadeia de produção-consumo de bens planetários esgotáveis-depauperação de recursos naturais (esta, mormente nos países pobres e nos em desenvolvimento), uma nova mão invisível: a do consumidor e sua psicologia. Na sociedade de consumo o sujeito (consumidor) se transforma em objeto. Ele ao mesmo tempo consome e precisa ser consumido. É a coisificação do indivíduo. E a estratégia que ele acaba adotando para voltar a ser sujeito (humano) é a de se transformar num objeto (produto, mercadoria) perceptível, notável (nesse assunto, o leitor não pode deixar de consultar: Zygmunt Bauman, Vida para consumo – a transformação das pessoas em mercadoria. Zahar Ed., Rio de Janeiro, 2008). Assim, praticamente tudo passa a ser regido por leis de consumo, facilitando enormemente o mercado de produção-compras, a mercantilização do ser e o aumento incessante de bens (itens) necessários, necessários apenas para completar/sustentar vazios existenciais decorrentes da construção de vácuos interiores. Isso, em escala planetária, multiplicado pelos bilhões de habitantes de nossa estupefata nave, acirra a exploração dos recursos naturais. É a ciranda do grande e maior de nossos círculos viciosos.
  • Na segunda, há um claro reforço à tese mencionada acima. Afinal, invocando Abraham Maslow, podemos pensar que há um limite para nossas necessidades básicas e materiais que, quando suprido, faz com que passemos a nos preocupar com questões muito mais transcendentais, da essência do ser (pelo menos assim deveria acontecer), como, por exemplo, a transpessoalidade e a real possibilidade do estabelecimento de uma sociedade da confiança. Por oportuno, essa verdade de que em essência gravitamos muito além da superficialidade da posse material, fica tocantemente exposta no depoimento de Rosimaria Souza Assunção, presidente da Associação dos Moradores do Quilombo de Boitaraca, em Nilo Peçanha, Bahia, a “dona Mara” (Clique Aqui e veja o vídeo), que, a despeito das precariedades materiais que bravamente sua comunidade enfrenta, tem visão, tempo e alma para a preocupação tanspessoal com aqueles que precisamente pelas difíceis condições locais são obrigados, contra a vontade de todos, a partir à cata de oportunidades para realização de seu potencial humano.
  • Na terceira, por fim, estamos diante do robusto escopo da filosofia moral. A pergunta que lateja é: é moral, é ético, é decente, é religioso, alguns terem tanto (pessoas, grupos ou países) e outros não terem? Essa é a nossa civilização humana? Esse é o destino e o propósito do projeto humano? Para isso viemos ter aqui, seja pelas mãos da natureza ou de Deus?

Responder tais perguntas, e outras quantas da mesma ordem, é urgente, é mais do que urgente, porque não nos parece que haja um tempo inesgotável, embora ele o seja, mas para que possamos dar nossas respostas mais nobres e imediatas. Seja como for, percebamos que é para nós um privilégio viver esse momento: mais do que em qualquer instante antes da trajetória humana, homens e mulheres foram tão protagonistas do futuro quanto agora. Façamos nossa parte, ou, no mínimo, pensemos seriamente na ‘fúria’ de Tim Jackson. Boa leitura!

Fausto Azevedo
Diretor da Agir

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